A (i)lógica da Religião




A vida tem mesmo uma lógica? Verdade ou Mito? Não estamos acostumados a assumir que não sabemos algo. Buscamos saber de tudo. Quando não conseguimos entender, compreender, perceber o sentido, ficamos alterados e tendemos a interpretar os fatos repetindo explicações corriqueiras que afirmam uma lógica.


Na ‘religião’ isso é tanto quanto comum: Deus sabe o que faz; Deus fecha uma janela mas abre uma porta; Deus escreve certo por linhas tortas; e tantas outras que procuram dar uma lógica para um momento não lógico. Essa resposta já foi dada por mim – várias vezes ainda! Isso permanece conosco, em nossa lista de respostas prontas até que o inverso chega, e essa frase ecoa em seu ouvido. Esse blá blá blá não ajuda tanto como você pensava.


O primeiro pensamento quando acontece com a gente é sobre mérito, justiça. Fazemo-nos uma série de perguntas que são quase retóricas, mas sem respostas: o que eu fiz para merecer isso? Porque justo comigo? São questionamentos internos perturbadores – o Eclesiastes também tinha. Talvez o medo de afirmar que possui questionamentos assim é o de ser julgado de pouca fé. Erro. O oposto da fé é o medo, não a dúvida. Somos instigados a pensar em toda narrativa Bíblica. Ter questionamento não faz de você um pagão, ateu, sem fé.


Queremos explicar o que vemos pelo que não vemos. Desejamos as razões metafísicas por trás dos fatos. Quase uma cabala Judaica! O pior de tudo é que colocamos Deus como variável determinante dessa equação. O que você não compreende, o ilógico, atribuímos à Deus. O Eclesiastes não faz isso.


Em todo Eclesiastes quase não se encontram essa preocupação com o invisível, com o que acontece nos bastidores. Ele se concentra nos fatos, na realidade nua e crua. Ele não joga com sombras e disfarces, somente do que é possível ser visto e que acontece “debaixo do sol, iluminado pelo meio dia”.


O Eclesiastes utiliza para isso a palavra vaidade. Mas essa palavra não chega à altura de satisfazê-lo, ele emprega o superlativo (na língua portuguesa). O curioso, segundo Ed René Kivitz, é que o hebraico, língua na qual o Eclesiastes foi escrito, não possui o recurso do superlativo. Não podemos dizer ‘agitadíssimo’ em hebraico usando apenas uma palavra. Ele utiliza a repetição para dar essa ênfase: vaidade de vaidade.


Esta palavra pode ser traduzida por fútil, vão, passageiro, efêmero, inútil, sem sentido u significado, sentido incompreensível, enigmático. Não que não haja sentido, mas é impossível identifica-lo. Gosto de falar como ‘um monte de nada’ ou ‘tudo sem diferença alguma’. Um exemplo simples é como se for realizar um saque de 800 reais em um caixa eletrônico, e ficar pensando entre escolher notas de 50, 100, ou de 20 reais -  o valor será o mesmo, esse pensamento é vaidade. Claro que você vai ter mais volume se optar por valor de cédula menor, mas o montante será o mesmo, não é o pensamento quanto utilidade.


Um exemplo é a morte prematura de uma criança ainda na barriga da mãe ou um tsunami que varre uma cidade inteira. Isso não faz o menor sentido! Aí vem os questionamentos sobre a existência de Deus (e o problema do mal): Deus Existe? Então porque existem essas catástrofes naturais?; Qual o sentido de existir Deus?; Por que meu filho que nem nasceu morreu, Deus?. Tentar descobrir essas coisas é vaidade, segundo o Eclesiastes. Não está errado questionar. O Eclesiastes mesmo nos mostra uma série de questionamentos e ‘porquês’. O que ele fala é que a busca por isso se torna sem sentido.


Geralmente, pensar nessas coisas, na vida, no que tem ou não valor, razão, tentar achar lógica em tudo, implica em uma dor insuportável. Essa é a principal razão de muitos se declararem ateus. Se a vida fosse lógica, todas as gestações seriam iguais. Não que as gestações não tenham um sentido, mas identificá-lo é impossível! Não possuímos algoritmos lógicos de fábrica. Nosso DNA possui sim uma lógica, mas não são todos iguais.


A consequência de questionamentos perturbadores somados com os jargões religiosos e o medo de ser um pecador por possuí-los leva muitos à depressão (ou ao ateísmo, secularismo). Quando não entendemos algo, é mais fácil dizer que não existe do que enfrentar (ou assumir) a nossa incapacidade. Negar. Resolvido. Não conseguimos explicar muitas coisas, quem dirá explicar Deus – e sua ação?


Como disse, é possível afogar todos esses questionamentos e temores de várias maneiras, mas isso não resolve o problema maior. Algumas tentativas são o ateísmo ou a religião (não digo Cristianismo como relacional que é, mas religião).


A religião é uma tentativa de codificar o mundo e identificar por que e para que as coisas acontecem, como acontecem e são como são. O tráfico da religião é o negócio mais rentável do mundo. Quando falo religião, não estou falando de cristianismo, estou falando da ‘condução humana’ dos sentidos de alguns pilares do cristianismo e outras crenças. Cristianismo não tem nada a ver com religião.


Das decodificações não escapam o diabo, anjos, demônios, o homem e nem mesmo Deus. Há muitos que esperam da religião a resposta para todas as perguntas e questionamentos. Egoísmo? Talvez. A maioria de nós não entende as pessoas, políticos, esposa, marido, filhos, amigos e nem a si mesmo. Como podemos ter a pretensão de entender Deus? Religião? Para, né!


O fato de não explicar Deus e sua ação não quer dizer que ele não exista. Uma tentativa seria uma teoria. E de teoria estamos fartos! Não preciso nem citar exemplos e/ou segmentos que fazem isso. Não é exclusividade do secularismo, ateísmo ou dos cientistas elaborarem teorias para explicar algo.


O Eclesiastes nos convida a andar com esses questionamentos, mesmo sem entender. O que passa e o que não, não é exclusividade nossa. As perguntas doem. Menosprezar a angústia existencial é uma opção eficiente para se livrar do incômodo, mas é covardia.


Ele descreve a vida como ela é. Ricos, poderosos, pobres e escravos vão todos para o túmulo. Essa reflexão será encerrada com a citação de Ed René Kivitz:


“Ver um cachorro correr atrás do rabo é sempre divertido, mas não é assim com pessoas que correm atrás do vento. Isso é vaidade. E se não for vaidade? Então, é absurdo. Tem escapatória? Não sei. Talvez a própria tentativa de responder essa pergunta não passe de uma tentativa absurda de dar consistência à névoa de nada.”






Ed René Kivitz – O Livro mais mal-humorado da Bíblia.

Imagem disponível em mamswojezdanie.wordpress.com



Por: Félix Martins Lírio