Discipulado

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Discipulado - a graça preciosa (parte 2)

Leia a primeira parte desse assunto clicando aqui.



Com a expansão do cristianismo e a secularização crescente da igreja, a consciência da graça preciosa perde-se gradualmente. O mundo estava cristianizado, a graça passara a ser propriedade comum de um mundo cristão. Tornando-se assim barata, caindo no automático, na rotina, formalidade.

O que preservou a graça ainda como preciosa, foi uma má interpretação da mesma. O monasticismo, tolerado pela igreja romana, foi quem manteve com o abandono da vida que possuíam, levando a vida procurando servir os severos mandamentos de Jesus na prática diária. Dessa maneira houve o protesto vivo contra a secularização do cristianismo, contra o barateamento da graça.

Entretanto, pelo fato de ter tolerado a vida monástica, evitando assim uma cisão definitiva na história da igreja romana, a igreja o relativizou, encontrando nele certa justificação de seu próprio mundanismo. A vida monástica restringia-se e transformava-se numa realização especial de caráter individual, que não poderia ser exigida ao povo cristão.

O monasticismo não se enquadra no que o apóstolo Paulo se refere acerca do não casamento para uma vida dedicada. A despeito disso, o monasticismo distanciou-se essencialmente do cristianismo por se deixar transformar ele próprio na realização excepcional, voluntária, restringida a poucos, reivindicando a si mérito especial. Isso não é discipulado, nem graça preciosa, pois a graça não se restringe a alguns.

A história toda mudou por intermédio de Lutero, que na Reforma, avivou uma vez mais o Evangelho da graça pura e preciosa. Mas antes Lutero teve sua vida consagrada totalmente no convento. Ali aprendeu nas escrituras que somente o obediente é que pode crer. As escrituras lhe mostraram que o discipulado de Jesus não era a realização meritória de alguns, mas um mandamento estendido a todos os cristãos.

A graça nos leva ao mundo, não que este seja bom e santo. Estamos na graça piedosa quando não precisamos viver com nosso eu piedoso, com o si mesmo – aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo. O discipulado da graça preciosa é para ser vivido no seio do mundo. Essa obediência ao mandamento de cristo deve acontecer na vida profissional todos os dias.

A vocação de cada cidadão no mundo recebe nova legitimidade a partir do Evangelho somente à medida que é exercida no discipulado de Jesus. O que impulsionou Lutero não foi a justificação do pecado, mas do pecador. A graça leva ao serviço, ao discipulado.

Quando entendemos errado a graça caímos no pensamento que, se a graça é suficiente para pagar todos os pecados e me justificar, então se eu viver naturalmente como tenho vivido, tudo como antes, vivendo na certeza que a graça de Deus encobre. O mundo inteiro está se tornando ‘cristão’ nessa premissa, desta graça. A má utilização dessa mensagem de graça conduz à completa destruição.

O desafio hoje é em meio a tanto falatório não se deixar pela facilidade e comodidade, entrar pela graça barata, sem responsabilidade dos atos.

Para esse pensamento sobre a graça preciosa no entendimento de uma vida de discipulado, cito Hebreus 10, que no contexto sobre o sacrifício de Cristo e seu valor eterno, diz a partir do versículo 16 ao 18:  "Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor. Porei as minhas leis em seus corações e as escreverei em suas mentes"; e acrescenta: "Dos seus pecados e iniquidades não me lembrarei mais". Onde essas coisas foram perdoadas, não há mais necessidade de sacrifício pelo pecado.; e acrescenta no versículo 26 e 27: Se continuarmos a pecar deliberadamente depois que recebemos o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas tão-somente uma terrível expectativa de juízo e de fogo intenso que consumirá os inimigos de Deus.

A fidelidade está imbuída na vida cristã, na vida de discipulado, no reconhecimento da graça preciosa. Dessa forma o escritor aos hebreus finaliza o capítulo.


Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele". Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que creem e são salvos.

Hebreus 10:38,39



Por Félix Martins Lírio



Discipulado - a graça preciosa (parte 1)





Quem está inserido no meio eclesiástico, ou já foi abordado pelos agentes das igrejas, já deve saber, por mais que de maneira leiga, o que é GRAÇA.

Muitos utilizam o jargão do favor imerecido. Perfeito. Trilharemos nosso pensamento com essa premissa.

A essência da graça seria que a conta foi liquidada antecipadamente e para todos os tempos e pessoas. Estando, então, a conta paga, pode-se obter tudo gratuitamente. Que tudo? Salvação e comunhão com Deus. Por ser imensuravelmente grande o preço pago, da mesma forma são as possibilidades de uso e dissipação.

Porém o maior inimigo das mentes dos que escutam é a própria graça, mas da maneira ‘genérica’ com que é apresentada: a graça barata. A graça barata significa graça como doutrina, como princípio e sistema; significa perdão dos pecados como verdade geral, irrefutável, o amor de Deus como conceito, repito, apenas conceito cristão de Deus. Quem o aceita já tem o perdão de seus pecados. O mundo, assim, encontra fácil cobertura para seus pecados dos quais não tem remorsos e não deseja verdadeiramente libertar-se.

Isso é a graça barata, institucionalizada. Por isso hoje é tão fácil ler nos noticiários de fofocas os ‘babados’ dos que se ‘tornaram evangélicos’. Confesso que nas linhas que escrevi encontra-se minha luta diária de realidade. A graça barata causa a justificação do pecado e não do pecador. Há um abismo enorme entre uma coisa e outra. Como a graça é autossuficiente, tudo pode permanecer como antes, afinal ‘minha força não faz nada’.

O mundo permanece a girar e nós seguimos pecando, mesmo na vida mais piedosa.

Gosto da ironia carregada nas palavras de Dietrich Bonhoeffer, quando diz: ‘Viva, pois, o crente como vive o mundo, coloque-se, em tudo, em pé de igualdade com o mundo, e não se atreva – sob pena de ser acusado de heresia entusiasta! – a ter, sob a graça, uma vida diferente da que tinha sob o pecado!¹'

Graça barata é graça como refugo, perdão malbaratado, consolo malbaratado², sacramento; é graça como inesgotável tesouro da igreja, distribuído diariamente aos ventos a quem queira congregar, sem pensar e sem limites, sem preço, sem custo.

Esse cenário é graça barata como justificação do pecado, mas não justificação do pecador penitente, que abandona o pecado e se arrepende. Não como perdão que separa do pecado. É barata por ser a pregação do perdão sem arrependimento, do batismo sem a disciplina, da Ceia do Senhor sem a confissão e reconhecimento do pecado – justamente oposto, por se achar bom e não pecador.

Caminho cristão sem discipulado, sem a cruz, sem Jesus cristo vivo.

A graça preciosa, por sua vez, é o Evangelho que se deve procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. É como o tesouro oculto no campo. É o senhorio que leva o ser humano arrancar o olho que o faz tropeçar, que faz largar tudo e seguir – mesmo que na continuidade de suas atribuições na sociedade.

É preciosa por custar a vida ao ser humano, e por assim, graça, de lhe dar a vida. Preciosa por condenar o pecado, e por justificar o pecador. Preciosa por ter custado a vida do filho de Deus. “Vocês foram comprados por preço” (1 Cor 6.20). Não foi de graça, foi pela graça! Não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus. É preciosa porque Deus não achou que seu Filho fosse preço demasiado caro para pagar pelos nossos erros e vida. A Graça é a manifestação de Deus.


Fique atento, pois esse texto não termina aqui. Acompanhe o site diariamente ou semanalmente. Para obter o conteúdo parte II, clique aqui.





[¹] Extraído do Livro com Título em Português e edição brasileira “Discipulado”, pela editora Sinodal, 2004.
[²] Malbaratado: desperdiçado. Outros sentidos como vender com prejuízo, sem dar valor, desperdiçando, fazendo pouco caso.


Por Félix Martins Lírio




Vida de Discipulado - prefácio




Estamos diante de inúmeras decisões todos os dias. Aliás, nossas decisões nos constroem. Somos frutos de nossas decisões – repito várias vezes com a finalidade de reconhecimento.

Qual filme assistir; qual caminho seguir; qual roupa usar; qual curso universitário optar; que livro ler (raro); em quem acreditar; são decisões a serem tomadas.

Vivemos em uma época que as notícias chegam rápido, mesmo não sendo sempre verdadeira.

Épocas de reavivamento eclesiástico (embora atualmente não se tenha muitos exemplos de movimentos dignos de ser considerados), trazem enriquecimento às pessoas para as sagradas escrituras. Por trás das palavras, por mais humanas que sejam[1], surge uma procura, uma busca decidida por aquele a quem unicamente interessa achar – o próprio Jesus.

Não nos interessa saber as ideias dos expoentes da igreja, mas aquilo que Jesus quer é que queremos descobrir. Em algum momento essa decisão recairá sobre você. Quero que com essa reflexão, se esse momento já chegou ou se ainda é imanente, te ajudar a decifrar. Não considero-me afortunado da verdade absoluta ou da capacidade absoluta de identificar e ser uma espécie de ‘guru’ da revelação.

Alguns identificam com as palavras da Bíblia, ou em reflexão sobre atitudes cotidianas. Comigo demorou certo tempo.

Nos espaços eclesiásticos hoje, se o próprio Jesus e não os métodos para se alcançar algo, se tão somente Ele estivesse em nosso meio na pregação, seria outro o grupo de pessoas a escutar e outro a rejeitá-la. Não que as pregações das igrejas tenham deixado de ser a palavra de Deus; no entanto há muito som estranho, esperanças falsas, falsos consolos, turvando assim a mensagem cristalina de Deus para a salvação, dificultando assim a decisão autêntica. Seria como chupar uma bala com a casca sem ser removida.

A culpa não deve ser procurada nos outros por estar carregada de fórmulas e conceitos estranhos. Há demasiados elementos humanos, cantigas de entretenimento, elementos institucionais, doutrinas de variadas origens. Quem de nós não teria imediatamente as respostas corretas para nos isentar da responsabilidade por aquelas que apontamos como erradas? Não seria também uma resposta correta, se a nós mesmos perguntássemos se não nos tornamos nós o empecilho para a palavra de Jesus?

Como? Com nossas atitudes cotidianas, talvez. Apegamos, também, facilmente a determinadas formulações, a um tipo de comentário, estrutura social, temos dogmáticos, repetindo conceitos Bíblicos mas sem razão alguma de o fazer relegando, assim, outras partes não menos importantes da Bíblia, pregando opiniões e convicções pessoais?

Nada servem perguntas retóricas ou generalizadas e autoacusação. Voltemos às escrituras, partindo da pobreza de nossas convicções, bem como estreiteza de nossas opiniões para a amplitude e a riqueza dada em Jesus Cristo.

De qualquer maneira, minha intenção não é de estar criando algo novo ou chamando a sua atenção ao que já praticamos, instituindo exigências impossíveis, atormentadoras, excêntricas, para ser luxo aos que obedecem e pesadelo aos que preocupados com o sustendo da família, se acharem menos dignos que estes.

Quando as escrituras falam de discipulado de Jesus, proclamam a libertação do ser humano de todos os preceitos humanos, de tudo quanto oprime, de toda inovação para cativar.

A palavra de Deus, os mandamentos de Jesus, são extremamente duros para os que se opõe com a visão distorcida pelos caminhos que tratam a Bíblia como auto ajuda.

Que Deus nos dê discernimento para permanecer com os fracos e os sem Deus em toda a amplitude do amor de Cristo para com todos os seres humanos e trilhar a estreita decisão a passo firme á sermos mais de Jesus em um mundo carente de amor.



Leia aqui a parte 1 e a parte 2.






[1] Por mais humanas: refiro-me às palavras de vontade humana vinda dos líderes eclesiásticos, que por mais que não seja propriamente Bíblicas, trazem um certo padrão moral e/ou de ordem para uma vida melhor.





Por Félix Martins Lírio